Nos últimos meses, o bairro Bom Retiro, em Curitiba, deixou de ser visto apenas como uma área elegante da cidade eespiritismo-1910 passou a ser tratado como “zona ameaçada” devido a obra silenciosa dos espíritas. Triplamente. Teme-se pelo crime de patrimônio, já que o hospital que deu nome à região, inaugurado em 1945, está em vias de ser demolido. Pelo crime ambiental, pois a legislação não protege a mata de 20 mil metros quadrados que ladeia a construção. E pelo atentado à memória: foi também naqueles altos da cidade que se desenvolveu a ação dos espíritas no estado, capítulo da história local que mal começou a ser escrito. A rua que passa ao lado, não à toa, se chama Allan Kardec.

É curioso. Uma simples passada de olhos pelos nomes dos primeiros espíritas paranaenses seria o bastante para provocar comichões nos pesquisadores. Basta citar que entre eles estava Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul; e Lysímaco Ferreira da Costa, fundador da Universidade do Paraná. A lista passeia ainda por famílias como a Guimarães – do jornalista Acyr e do médico Alô, dois curitibanos ilustres do século 20. Sem falar na irresistível figura de Lins de Vasconcellos, o sertanejo que fez fortuna e a doou para a Federação Espírita do Paraná, fundada em 1902.

Mesmo assim, conta-se nos dedos os estudos sobre esse grupo que influenciou das letras à economia paranaense. Basta lembrar que o Colégio Lins de Vasconcellos – sob os cuidados da federação de 1960 a 1998 – figurou entre os melhores do estado. “Uma das maiores lacunas seria responder como o espiritismo influenciou uma legião de brasileiros importantes”, comenta o sociólogo Reginaldo Prandi, da USP.

Pesquisador notável de umbanda, candomblé e neopentecostalismo, Prandi iniciou sua carreira na década de 1970, estudando o espiritismo brasileiro, mas ele mesmo nunca tinha se detido com vagar sobre o assunto. Este ano, saldou a dívida lançando Os mortos e os vivos, livro que promete alavancar o debate, quando não provocar a publicação de outros estudos. Já não era sem tempo, particularmente no Paraná, que vê crescer um centro de pesquisa espírita na Faculdade Doutor Leocádio José Correia, a Falec.

Colocar essas publicações lado a lado seria de grande valia – até para ver se alguns mitos resistem. “É de consenso que os espíritas seguiram um padrão em todo o país, criando escolas e hospitais psiquiátricos”, observa a historiadora Vera Irene Jurkevics, professora da Falec.

É fato. Mas não está excluída a hipótese de que o misto de ciência, filosofia e religião criada por Allan Kardec, em 1857, tenha particularidades regionais. O Paraná, por exemplo. É de se perguntar se o simbolismo – cultivado fartamente no final do século 19, início do 20 – e o anticlericalismo, comum entre os barões da erva-mate, não serviram de estímulo à adesão ao espiritismo por aqui. “É difícil afirmar, mas faz sentido”, comenta Prandi, para quem os versos etéreos da cultura simbolista prepararam o terreno para que tantos paranaenses das altas rodas aderissem à doutrina.

Mito

Um dos raciocínios enganosos que ronda o espiritismo no estado é deduzir que, sendo os primeiros espíritas ricos, não sofreram perseguição. A historiadora e educadora Cleusa Fuckner, também ligada à Falec, listou em seus estudos episódios dignos de uma Reforma e de uma Contra Reforma. Em vez de protestantes, foram os espíritas a se defender. “Havia uma cruzada de difamação contra os espíritas na imprensa local”, comenta, ao lembrar que pesou sobre o grupo a suspeita de cultos demoníacos.

A perseguição, reforça Cleusa, se prolongou até o fim do Concílio Vaticano II, em 1965, quando a Igreja abraçou o discurso ecumênico. Do que se deduz que dizer-se espírita era uma fonte de problemas, de toda a ordem – da profissional à sentimental. É o que basta para suspeitar que já passa da hora de publicar um “História da Vida Privada dos Espíritas no Brasil”, respondendo se chegaram a formar uma espécie de sociedade secreta.

Para Reginaldo Prandi isso não aconteceu. “A vantagem dos espíritas é que são discretos e intelectualizados, o que facilitou a convivência com outros grupos.” O estudioso entende que se deu um jeitinho brasileiro para driblar o preconceito – o principal deles é ser espírita sem deixar de ser católico. “Por isso é difícil saber quantos espíritas há no Brasil”, diz, sobre o grupo apontado pelo IBGE com 2% da população, algo como 2,8 milhões de seguidores.

Perseguição

Espíritas ousavam dizer seu nome?

Para o estudioso, o primeiro impulso dos adeptos não era propriamente religioso, mas científico. Havia também o espiritismo-1910-2estímulo político. Ser espírita significava estar na oposição aos poderes estabelecidos. “Em francês, O Livro dos Espíritos tem alto grau de complexidade. Só podia ser lido e entendido por letrados, o que evitou a massificação da doutrina”, acrescenta Vera. O que não impediu de ser chamado de charlatanismo. Ser espírita chegou a ser considerado crime na Primeira República.

Para a pesquisadora Cleusa Fuckner, são necessários mais dados para afirmar até que ponto os espíritas tinham coragem de dizer seus nomes em sociedades tão católicas, em especial a paranaense. O que se pode afirmar é que se não foram respeitados por sua fé, o foram pelo serviço que prestaram à sociedade. O Hospital Espírita Bom Retiro é a prova. Por 67 anos atendeu pacientes com sofrimento psíquico, sanando as negligências do estado no campo da saúde. Na melhor das hipóteses, o sentimento provocado pela demolição pode ser mais do que lamento pela paisagem perdida. Pode ser também gratidão. (JCF)

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br