Cozinha de Santo na raiz da ASSEMA

Na Assema entendemos que a evolução da Umbanda, é necessária e muito bem vinda, mas também aprendemos que as tradições e fundamentos ancestrias, são elementos que dão o suporte para que esta evolução siga o caminho correto.

Uma tradição, que tem um fundamento muito grande em nossa casa e da comida dos Orixás.

Nossa casa é uma casa de Pretos Velhos, regida por eles, por conseqüência tem uma influencia grande da raiz africanista. Não fazemos imolação, e também não usamos nada de origem animal nas comidas. Nossas comidas sagradas, são oferecidas nas homenagens aos Orixás, nas camarinhas, nas deitadas dos tambores, etc.

Dentro de nossa tradição, para preparar estas comidas sagradas, temos pessoas devidamente “cruzadas” para isto, são elas as responsáveis pela nossa “cozinha de Santo”. Usamos para estas pessoas a mesma terminologia usada nas casas de nação: “Yabassés”.

O termo Yabassé vem do Yorubá – Iyá agbá asé – que numa tradução livre significa “a mãe ou a senhora que cozinha”.

A cozinha é um lugar especial nas nossas casas, nos terreiros é um espaço sagrado; pois, a comida nas religiões de matriz africana é uma linguagem fundamental que faz parte das muitas maneiras de se comunicar como sagrado.

No terreiro, há um entendimento de que “tudo” come. Os atabaques comem, os orixás comem; e tudo mais que tenha a função e o sentido para ser sacralizado terá um tipo de ingrediente, de preparo; terá uma receita para cada ritual especifico.

A comida é uma complexa realização visual, estética e simbólica.

Assim, as pessoas responsáveis pelas cozinhas devem passar pela iniciação religiosa, e como se diz nos terreiros: é preciso também ter “mão de cozinha”, ter vocação para a cozinha.

É a função “iyá agbá sé” cozinhar, escolher ingredientes, selecionar utensílios; saber maneiras especiais de cocção, de frituras, de como lidar com o fogo; quais as quantidades; e como mostrar as comidas nos diferentes momentos da vida religiosa do terreiro.

O preparo de variadas receitas; o uso dos ingredientes, os mais diversos; fazem parte da função social e hierárquica da mulher na cozinha do terreiro, que também passa a ocupar um significativo papel no âmbito sagrado, e para o cotidiano do terreiro

Pode-se dizer que desde os mais elaborados cardápios ao uso de um acaçá mostra a função que tem cada comida no terreiro. Todas são importantes, todas terão um sentido, uma relação do entendimento do sagrado no cotidiano.

Os saberes culinários devem ser muito consistentes sobre o conhecimento das diferentes técnicas, na sua maioria artesanais. E para realizar tarefas tão elaboradas, e que exigem tantos conhecimentos, a seleção da mulher que irá cozinhar segue muitos critérios, e um dos principais é a dedicação que ela deverá ter para acompanhar os muitos momentos da vida religiosa no terreiro

Fazer a comida é uma ação diária que estabelece diálogos entre homem e o sagrado, e se relaciona com as formas rituais para o oferecimento, por exemplo, de um acarajé para Iansã, de um prato de ebô para Oxalá, que deve seguir os preceitos que mostram diferentes aspectos sobre quantidade, tipos de utensílios, e demais temas rituais que estão integrados ao oferecimento de cada comida.
A “cozinha de Santo”, é uma tradição bonita e importante dentro de nossa raiz.